terça-feira, 26 de abril de 2005

lua e chuva

Noite. Coração atento sob o céu pastoso de chuva, deslizando sob a brancura noturna turvada pela iluminaçao pública. O asfalto molhado, a ponte deserta e atrás do pilar uma lasca da esfera amarelada embrulhada em névoa. Em seguida o vento pesado puxa a barra do temporal para exibir a bola inteira. A lua molhada à direita da igreja em exibição fugidia.

Manhã. O rádio comenta o arco-íris pomposo na mesma ponte, a névoa também a mesma, apenas umedecida de despertar. A esfera outra. E eu noutro rumo.

***
Tenho agora um A.njo a cuidar de meus frios. Esse A.njo perfuma de incenso a penumbra da casa, enquanto a desfaz em luzes macias que lavam a atmosfera de desolação que o gelo injeta-me nos ânimos. Um A.njo que se faz em azul de olhar, verde de broto e sedução, brancura sedosa de enlace na madrugada e abraço para amanhecer. Um A.njo que até me inventa noites de primavera artificiais para dirimir meu medo das manhãs de outono. Só falta-me agora que esse A.njo se faça verbo comigo ou cantiga para minha dança, que seja voz mansa ou aguda de rechear a casa com música e claridade junto com meu desafinado mas insistente intento enquanto se desfaz a palidez do sol.

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