1909, posts esparsos, iniciados em fevereiro. O último é de 3 de novembro.O diário de Virginia Woolf organizado por David Bradshaw, com prefácio de Doris Lessing (Ed. Nova Fronteira, 2003) é uma confusamente comentada coletânea de fragmentos de Vírginia - ainda Stephen - que em tudo se parecem com alguns blogs de nossos dias. Pena que o organizador consuma tanto tempo justificando, no prefácio, na introdução,numa nota sobre o texto e em comentários para cada fragmento, colocados após a seqüência de "posts", a imaturidade literária de uma Virginia humana, preconceituosa, ácida e angustiada com a condição de solteira na sociedade britânica do início do século

Conheço menos do que gostaria sobre a figura que me fascinou através de Orlando e depois Mrs. Dalloway e , mais tarde em biografias e ensaios sobre sua vida, mas atrevo-me a dizer que o livro é mal montado. Ao menos poderiam ter colocado as notas no rodapé de cada página e os comentários sobre cada fragmento em sua seqüência, mas vá lá, o que desagradou mesmo foi o excesso de dissecação que me parece enganoso nalguns momentos. Há conclusões ou entrelinhas que talvez não tenham muito a ver com os silêncios que a própria Virgina mastigou entre cada página escrita em caligrafia pouco caprichosa.
Mas de modo algum concluiria que não vale ler o livro, ao contrário, apenas prefiro saborear apenas a escrita de Miss Stephen, cheia de promessa e do tempo vivido naquele ano, cheio de reticências. E fiquei ainda matutando como é alta a probabilidade de, nalguma data futura, se por remoto acaso o que escrevo venha a ter interesse público, de alguém colocar interpretações nos meus silêncios que não condizem com o que realmente pensei ou senti ao escrever; ou de esse alguém estender à minha personalidade toda afirmações restritas a um momento diminuto. Quanto equívoco pode haver em olhar alguém de fora e no distanciamento de tantos anos...
Um comentário:
Mas não será isso uma inevitabilidade? Será que nós mesmos quando lemos algo de anos atrás, não temos dificuldade em reavivar nossas próprias entrelinhas? De qualquer maneira, isso não justifica uma dissecação pública e cada um que faça emergir as entrelinhas que melhor lhe apetecer.
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