quinta-feira, 17 de maio de 2007

O Outono em casa



É preciso fritar o arroz bastante
Antes de colocar água fervendo.

E não pode mexer jamais depois de a água ser posta.
O alho deve fritar no óleo com o arroz.

Coisas que eu sei e que não. Eu sei muitas coisas.
Faxina, por exemplo. Sei limpar uma casa de tal modo
Que não sobra um canto que não
Tenha sido tocado por minhas mãos
Depois vou sujando. Com muito gosto.
Deixo peças na sala e louças sujas na pia.
Não na mesma hora, mas um pouco bastante depois
Volto limpando. Assim me faço.
Nos objetos que me acompanham.

Gosto de andar nas ruas e comprar coisas
Que vão se arrumando em torno de mim.
Eu tenho muitas coisas,
Quero dizer, tenho muitas camadas.

Uma camada de livros, outras de sapatos.
Tem a camada de plantas. E toalhas de rosto.
Tenho camada de cosméticos e adereços.
Uma camada de nomes e coisas que vejo.
Tudo ordenado ao meu redor. Em forma de corpo.
Um corpo que me sustenta
Quando o meu próprio me falta.

Cadeiras são meus ossos.
Sapatos são meus braços.
Torneiras são meus poros.
Paredes como roupas de inverno.
(Quando toca música em minha casa sai do umbigo.)

Descanso recostada nas paredes da casa
Que me guardam como abraço.
Me abraço quando me derramo na sala.
E na cozinha. Em geral adormeço no quarto.

Tudo em minha casa tem existência.
Todas as coisas significo. Com os olhos.
Ou com as mãos. Minha casa tem silêncios
Que às vezes ouço. Em meu corpo

Tem silêncios maiores ainda
Que às vezes ouço. E faço poemas.
Faço poemas dos silêncios que ouço.
Ando com mania de lustra-móveis e ceras líquidas.
Olho um por um nas prateleiras. Sinto a textura e o cheiro.
Espalhando um pouco entre os dedos. Prefiro os de textura fina
E que cheiram a jasmim (gosto mais do aroma floral mas a palavra Jasmim é tão bonita).
Levo todos pra casa e vou espalhando. Primeiro o assoalho.
Considero todos os cantos.Depois os móveis.
Com as mãos vou tateando.Um por um.
Em reverência
Ao que me sustenta quando em desamparo.

As casas me sustentam em mim. Por isso as quero em detalhe.
Bem cuidadas e cheias de espaço onde novas coisas se deitam.
Costumo encontrar tesouros escondidos
Nas dobras das colchas
E nas louças sujas na pia.Tenho muitas janelas.
Que é por onde o sol e a chuva me visitam.
O vento aqui também é muito forte.
Às vezes derruba tudo e eu gosto.
Mas aqui também cabem pessoas.
Tem sempre lugar para pessoas em mim.


Viviane Mosé

6 comentários:

Anônimo disse...

Que belo! tenho fome de mais tempo para fazer essas coisas em casa.
É sempre bom andar por aqui.
Beijos

Anônimo disse...

Isso é lindo demais, amada minha. Lindo e presente no outono que já nem me amedronta mais. Sigamos bagunçando e moldando a toca que nos toca. Amo estar ao teu lado! Amo-te!

Anônimo disse...

A casa não é uma casa... é um LAR.
Um cais, abrigo onde habita o lírico, o lúdico e o poético.
É o refúgio secreto de cheiros e temperos raros como o amor, o humor e o jazz.
Me sinto privilegiada por ser uma das pessoas que a casa abriga e acolhe em algumas noites frias como estas.
E me sinto à vontade para sentar perto da lareira e me aquecer no calor da amizade de vocês.
Beijos!

Anônimo disse...

Poesias são para serem vistas e sentidas. E são. Pude até passear pela casa.
Que milagre a Andréa postar!!!
beijão, gurias!

Anônimo disse...

Olá, meninas!
Que lindo esse "achado". Tô chegando de Sampa e tenho tudo isso pra fazer no meu apartamento. Espero que fique tudo bonito assim.
Beijos.

Anônimo disse...

Claro que pode minha linda. Beijos e uma bela semana para vocês. Sabado tô aí, combinado hein!