Do fundo das gavetas sempre brota um amontoado de pó e inutilidade. Guarda-se trastes e sentires na expectativa do que se possa vir a fazer com eles um dia, mas no escuro do armário o sentido desses guardados vai desbotando. Bom mesmo é escancarar todos os móveis da alma e despejar as mágoas amareladas, todas as raivas roídas de traça, os rancores manchados e empilhar junto com os casacos que não vamos mesmo usar nem daqui a doze invernos, com aqueles talheres gastos com os quais já não queremos ordenar a mesa e deixar para que levem e façam o proveito possível. A casa se espreguiça com as entranhas mais leves, suspira incensos e flameja luzes delicadas nos castiçais.
Então um entorpecimento sutil nos embala do eclipse ao desabrochar do sol... e no correr dos cheiros amadeirados, virão dias espaçosos na casa revigorada que inspira afazeres lúdicos.

3 comentários:
Inspirador. Fiquei com vontade de escancarar portas e janelas de mim.
Beijo, meninas!
O post tá legal e bem escrito, mas precisava lembrar que terá inverno?
Eu sempre preciso juntar roupas de doze invernos, quando invento de ir a Bagé.
Beijo.
Organizar e reorganizar coisas, tanto dentro quanto fora de nós, nos dão leveza e bem-estar, mesmo.
Eu tenho a mania de arrumar armários e guarda-roupas em dia de chuva. Já a mim, prefiro em pleno sol na frente do Guaiba, rs.
Beijos, gurias!
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